“ é notável
a semelhança entre
Os moldes
do amor e os
moldes
da insanidade.”
- O Merovíngio, em “Matrix Revolutions”
“Borboleta
parece flor
Que o
vento tirou pra dançar(...)”
- O Teatro Mágico, “Sonho de uma flauta”
O que farias pelo amor de uma bailarina? Calma, caro leitor. Bem sei que
não estás à procura de nenhuma outra mulher, de ninguém mais com quem queiras
partilhar tua vida, sentimentos e tudo o que tens e és. Bem sei disso, não te
preocupes. Deves tomar o termo “bailarina” como alegórico, e até como genérico,
eu diria. Como assim? Explicá-lo-ei.
Peguei-me divagando certo dia sobre as mulheres. Já paraste para reparar
no que nós, meros mortais que caímos como maçãs podres aos seus pés, somos
capazes de fazer por elas? Creio ser uma grande perda, uma perda irremediável o
que a modernidade, se assim a podemos chamar, fez conosco, os homens. Onde está
o cavalheirismo? Onde está o romantismo de perseguir o amor de uma mulher? Onde
está a dor de magoar uma destas magníficas criaturas? Bons eram os tempos em
que um homem saía com um buquê de rosas vermelhas pela rua, vestido como se
fosse ao trabalho, assobiando uma melodia que não fazia o menor sentido – uma
vez que seus pensamentos estavam em sua amada... - perdoe-me por esse
interlúdio, caro leitor. Necessitei fazê-lo para que pudesses enxergar o quanto
estamos aquém da oração que precede este breve interlúdio – já paraste
para reparar no que nós, meros mortais que caímos como maçãs podres aos seus
pés, somos capazes de fazer por elas?- .
Quanto à alegoria, voltemos à minha divagação sobre as mulheres.
Depois de muito cogitar, pensar , refletir, refletir outra vez, e outra vez, e
mais uma vez, creio ter chegado a uma revelação quase que divina, devido ao
súbito choque que recebi ao compreendê-la, choque que fez minha cabeça girar
por alguns minutos e cair estatelado na poltrona de onde havia saído : “ Todas
as mulheres são bailarinas .”
“Todas as mulheres são bailarinas...”
tal verdade adentrou em minha alma como um raio de luz e de fé mandado pelo
próprio Criador. “ Todas as mulheres são bailarinas”, peguei-me repetindo em
voz baixa. Se prestardes bem atenção e refletires bem em cada palavra contida
nesta verdade chegarás à mesma conclusão que eu cheguei sem grandes esforços –
precisei sentir-me atordoado para descobrir tal realidade, mas contigo creio
que será diferente, uma vez que já te propus a premissa; podes chegar à
conclusão por ti mesmo se te esforçares um pouco...
... mas , como “há leitores tão obtusos, que nada
entendem, se se lhes não relata tudo e o resto” ¹ - estou certo de que este
não é o teu caso, tu que agora com toda boa vontade lês estas letras mal
traçadas por este humilde servo – devo expor o que me levou a tão grande
revelação. Por que todas as mulheres são bailarinas? Ora, basta ver como elas
movimentam-se graciosas ao lerem um bom livro; basta perceber a força do olhar
delas ao olhar o nosso olhar; basta ver como elas se utilizam da mais sublime
orquestra já inventada – o som de nossos corações insensíveis e por vezes
gelados e machistas – para dançarem com toda a leveza em nossos pensamentos e,
com toda a leveza de uma verdadeira bailarina, entrarem e saírem de nossas
cabeças sem que notemos quando entram e quando deverão sair. Julgas tal
comparação forçada por demais? Vejamos o que a história nos diz. ²
Para provar-te que todas as mulheres são bailarinas, te levarei comigo,
insensível leitor, por duas histórias em que bailarinas – por serem mulheres e
por ser essa sua marca na vida real – levam os homens a beirarem a loucura. Em
uma delas, o amor é levado até as últimas consequências. “ e na segunda?”,
perguntarás. “Também”, eu responderei.
A primeira história chama-se “O Fantasma da Ópera”, de Gaston
Leroux. Uma fantástica história, embora um tanto triste, mas sabemos o que
somos capazes de fazer por uma bailarina. Para resumir a história e deixar-te
curioso para saber do que a história de fato trata, digo –te apenas que, pelo
amor de Christine Daaé, uma bela jovem do corpo de balé da ópera de Paris, “o
fantasma” quase matou aquele a quem sua Christine amava verdadeiramente. No fim
da história, movida por um amor incondicional pelo algoz de seu amado,
Christine o beija e faz com que ele liberte O Visconde de Chagny das amarras
que o enforcavam. Assim , o placar passa a ser : bailarinas 1x 0 homens .
Na segunda história, chamada “O Soldadinho de chumbo”, um
soldadinho feito de estanho acaba perdendo a própria vida simplesmente porque
uma bela bailarina entrou, sem mais nem menos, em seu coração. Por ela ele
enfrentou uma terrível viagem pelo esgoto, foi engolido por um peixe e acabou
morrendo derretido pelo fogo da lareira da casa onde vivia. Eis um pequeno
detalhe: quase que por obra do destino, a janela da sala da casa onde viviam o
soldadinho e a bailarina estava aberta; pela janela entrou um vento que a levou
para a lareira, onde derreteu-se junto daquele a quem amava. E assim, perdemos
o jogo com um placar de 2x0 conquistado pelas bailarinas. No entanto, é
necessário dizer algo mais a respeito desta história. O soldadinho era feito de
rude chumbo; ela, a bailarina, feita de um delicado cartão. Ela era desenhada
com extrema perfeição; ele não possuía uma das pernas por causa de um problema
em sua fabricação. Ele era um soldado;
ela uma bailarina. Ela era bela; ele era feio. Ele era corajoso; ela o era
ainda mais. Ela era amável... vejam só! Ele também o era!
Bem costumam dizer alguns pensadores levianos de hoje em dia que é “o
amor o que importa.” Verdadeiramente , digo eu. Mas não este amor que
conhecemos, um tanto mesquinho, fantasioso demais, narcisista ao ponto de
querer que o/a amado/a se enquadre perfeitamente em nossas medidas. Só posso
pensar , encerrando as minhas proposições, que o amor é que nos pode explicar
tudo sobre esses fantásticos seres. As bailarinas amam. Elas tem coragem. Elas
são bailarinas! Que fizeste por tua bailarina, caro soldadinho de chumbo?
1-
ASSIS, Machado de
, Dom Casmurro , cap. 109, Um filho
único.
2-
Ironia do autor
Luiz Carlos

Nenhum comentário
Postar um comentário